O maior luxo do século XXI não é o imóvel, é o tempo que a cidade devolve às pessoas

Redação ImobiPress

redacao@imobipress.com.br
Publicado em 23/07/2026 às 18:55 / Leia em 7 minutos

Especialista da Arqos Urbanismo analisa como mobilidade, planejamento urbano e qualidade de vida estão redefinindo a valorização imobiliária e a cidade

Durante décadas, a valorização de um imóvel esteve associada a fatores como metragem, padrão construtivo, localização e infraestrutura. Hoje, porém, um novo fator ganha espaço entre consumidores, urbanistas e incorporadoras: a qualidade de vida proporcionada pelo lugar onde se vive.

A pesquisa Viver nas Cidades: Mobilidade Urbana, publicada em 2025 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta que moradores das principais regiões metropolitanas brasileiras podem gastar mais de duas horas por dia em deslocamentos, comprometendo tempo de lazer, convivência familiar e produtividade. 

Essa realidade tem provocado uma mudança no comportamento dos consumidores. Se antes fatores como metragem, localização e padrão construtivo eram suficientes para orientar a decisão de compra, hoje os moradores também avaliam aspectos relacionados ao bem-estar, como mobilidade, acesso a serviços, áreas verdes e convivência. Como consequência, incorporadoras e urbanistas passaram a desempenhar um papel cada vez mais relevante na criação de empreendimentos e bairros capazes de atender a essas novas expectativas. 

Segundo Felipe Chukr, CEO da Arqos Urbanismo, incorporadora com atuação em Alphaville-SP, essa mudança representa uma transformação na forma como cidade e empreendimento são planejados.

“Estamos vivendo uma mudança no mercado imobiliário. Hoje, o diferencial não está apenas no empreendimento, mas na capacidade de uma cidade mais eficiente, humana e conectada, que devolva qualidade de vida às pessoas”, afirma o especialista. 

O custo invisível dos deslocamentos na cidade

Nas grandes cidades brasileiras, milhares de pessoas passam diariamente horas no trânsito, entre casa, trabalho, escola, comércio e serviços. Além do impacto financeiro provocado pela mobilidade, esse cenário compromete a produtividade, reduz o convívio familiar e afeta diretamente a saúde física e mental.

Para Felipe, essa realidade tem mudado o comportamento dos consumidores, que passaram a considerar a facilidade de acesso a serviços essenciais, áreas de lazer, mobilidade e conveniência como fatores decisivos na escolha de um imóvel. Segundo ele, o mercado deixou de avaliar apenas o produto imobiliário para considerar também a experiência de viver naquela cidade. 

“Hoje, morar perto do trabalho, do comércio, das escolas e dos serviços significa ganhar qualidade de vida. Essa conveniência passou a ter um peso cada vez maior na escolha de onde viver. As pessoas perceberam que tempo também é patrimônio”, comenta. 

O que torna um bairro verdadeiramente inteligente

O conceito de bairro inteligente vai muito além da tecnologia. Embora soluções digitais sejam importantes, a inteligência urbana significa criar ambientes onde as necessidades do cotidiano possam ser resolvidas com facilidade.

Isso envolve comércio, educação, lazer, serviços, áreas verdes, mobilidade eficiente e espaços públicos qualificados próximos às residências.

“Quanto menor a dependência do automóvel para as atividades do dia a dia, maior tende a ser a qualidade de vida dos moradores”, complementa o executivo da Arqos. 

Comunidades mais conectadas e humanas

Outra tendência que vem ganhando força é o desenvolvimento de comunidades planejadas capazes de estimular as relações entre vizinhos e fortalecer o senso de pertencimento. Praças, parques, áreas compartilhadas e espaços de convivência deixam de ser apenas diferenciais para se tornarem elementos estratégicos na construção de cidades mais acolhedoras.

“Hoje, as pessoas não buscam apenas empreendimentos, mas bairros capazes de promover encontros, fortalecer a convivência e proporcionar uma vida urbana mais equilibrada. Elas querem acesso às conveniências das grandes cidades, sem abrir mão da tranquilidade e da qualidade de vida. Ao mesmo tempo, cresce o desejo de fazer parte de uma comunidade. Mais do que morar em um endereço, as pessoas querem sentir que pertencem a um lugar”, explica Chukr. 

LEIA TAMBÉM: DISTRITQ impulsiona valorização imobiliária de Alphaville

O futuro do morar ultrapassa os limites da residência

A forma como as pessoas percebem o valor de um imóvel também está mudando. Essa transformação tem levado as incorporadoras a ampliar seu olhar sobre o processo de desenvolvimento imobiliário. Mais do que entregar unidades residenciais com boa arquitetura e design, cresce a responsabilidade de criar ambientes capazes de promover qualidade de vida, pertencimento e conveniência para os moradores.

Nesse contexto, atributos como calçadas acessíveis, áreas verdes, comércio de proximidade, ciclovias, espaços de convivência e serviços integrados tornam-se tão relevantes quanto às características do próprio imóvel. Ao mesmo tempo, cresce a valorização da arquitetura por assinatura, que alia identidade, qualidade estética e funcionalidade aos empreendimentos, agregando valor não apenas às edificações, mas também à identidade do bairro e da paisagem urbana.

“Quando falamos sobre o novo conceito de luxo, a arquitetura por assinatura deixa de ser apenas um atributo estético e passa a representar identidade, exclusividade e pertencimento. Ela traduz um conceito, imprime personalidade aos empreendimentos e fortalece a conexão entre as pessoas e o lugar onde vivem. As pessoas querem viver em bairros com personalidade, que reflitam seus valores e proporcionem uma experiência de morar mais autêntica”, avalia o executivo. 

Na avaliação do executivo, o imóvel deixa de ser um elemento isolado e passa a integrar um ecossistema planejado, onde arquitetura, urbanismo, mobilidade e qualidade de vida se complementam para oferecer uma experiência de morar mais completa e duradoura.

Planejamento urbano como ferramenta de saúde e bem-estar

Um estudo publicado em 2026 pela revista Nature Health mostrou que bairros com ruas caminháveis, áreas verdes e uso diversificado do solo estão associados a melhores indicadores de saúde física e mental, além de menores níveis de estresse entre seus moradores. 

Para o executivo da Arqos, essa relação é cada vez mais evidente, especialmente quando o planejamento urbano contribui para reduzir o tempo gasto nos deslocamentos diários.

“Um planejamento urbano eficiente, especialmente quando prioriza a mobilidade e reduz o tempo gasto nos deslocamentos, impacta diretamente a saúde, o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas. Mais do que organizar o crescimento das cidades, planejar espaços é criar ambientes que incentivem uma rotina mais equilibrada, saudável e conectada às necessidades da população”, explica. 

Cidade inteligente: Um novo critério de valorização imobiliária

Segundo o relatório World Cities Report 2024, da ONU-Habitat, cerca de 56% da população mundial vive atualmente em áreas urbanas e a expectativa é que esse percentual alcance aproximadamente 68% até 2050. Esse cenário reforça a importância de cidades mais eficientes, sustentáveis e voltadas à qualidade de vida.

Para o executivo da Arqos, todas essas transformações refletem uma evolução natural do mercado imobiliário e uma resposta direta às novas expectativas dos consumidores. Segundo ele, o desafio das incorporadoras já não se limita à entrega de empreendimentos com boa arquitetura, design e infraestrutura, mas também à criação de ambientes capazes de promover bem-estar e conveniência.

“Durante muito tempo, acreditamos que o maior luxo era possuir um imóvel maior ou mais sofisticado. Hoje percebemos que o verdadeiro luxo é recuperar tempo para estar com a família, praticar atividades físicas, encontrar amigos ou simplesmente viver melhor. É isso que um planejamento urbano de qualidade pode proporcionar. Cabe às incorporadoras compreenderem essa transformação e desenvolver projetos que respondam às novas necessidades e expectativas dos moradores”, afirma Felipe. 

Segundo ele, os empreendimentos que mais tendem a gerar valor nos próximos anos serão aqueles capazes de integrar moradia, mobilidade, serviços, natureza e convivência.

“Não estamos falando apenas de construir bairros. Estamos criando lugares onde as pessoas consigam viver com mais equilíbrio. Quando um projeto urbano reduz deslocamentos, aproxima serviços e estimula a convivência, ele entrega um benefício que nenhum acabamento de alto padrão é capaz de oferecer: tempo”, finaliza.

Compartilhe