Uma pergunta recorrente para quem conhece os Estados Unidos é: por que tantas casas americanas são construídas com estruturas de madeira, enquanto no Brasil predominam o concreto e a alvenaria?
Durante muito tempo, essa diferença foi explicada quase exclusivamente pelo clima ou pela disponibilidade de materiais. Esses fatores tiveram importância histórica, mas, hoje, considero que existe uma questão ainda mais relevante: a forma como cada país desenvolveu sua indústria da construção.
Nos Estados Unidos, a construção residencial evoluiu para um sistema altamente padronizado. A utilização da madeira em sistemas como o wood frame permitiu transformar boa parte da obra em um processo previsível, repetitivo e relativamente industrializado.
As peças seguem dimensões conhecidas, os fornecedores trabalham dentro de padrões consolidados e diferentes profissionais conseguem executar etapas sucessivas da construção utilizando praticamente a mesma linguagem técnica.
E talvez essa seja uma das maiores vantagens do modelo americano: a repetibilidade.
Um exemplo simples ajuda a entender o que isso significa na prática. Em grande parte das construções residenciais americanas, os montantes de madeira das paredes são posicionados a cada 16 polegadas — aproximadamente 40,6 centímetros — de eixo a eixo. Essa medida não foi escolhida isoladamente. Ela conversa com praticamente toda uma indústria de componentes.
Uma das chapas mais utilizadas na construção americana possui dimensão padrão de 4 por 8 pés — aproximadamente 1,22 por 2,44 metros. Os 4 pés correspondem a 48 polegadas, exatamente três módulos de 16 polegadas. Assim, as bordas das chapas encontram os montantes nos pontos previstos, reduzindo cortes, adaptações e desperdícios.
E essa lógica se repete. Estrutura, chapas de fechamento, drywall, isolamento e diversos outros componentes são desenvolvidos considerando módulos construtivos conhecidos.
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Uma indústria fabrica pensando na outra.
Esse talvez seja um dos aspectos que mais chama a atenção de quem acompanha uma obra nos Estados Unidos. Não se trata apenas de construir com madeira. Trata-se de ter criado um sistema no qual materiais, medidas, fornecedores e mão de obra falam a mesma linguagem.
Uma casa construída na Flórida precisa responder a condições muito diferentes de uma residência localizada no norte dos Estados Unidos. Existem diferenças importantes de isolamento, proteção contra umidade, vento, neve, furacões e eficiência energética. Ainda assim, a lógica básica do sistema construtivo permanece bastante semelhante.
É essa repetição que permite criar uma cadeia produtiva especializada, reduzir improvisações no canteiro e transformar boa parte da construção em um processo mais previsível e industrializado.
No Brasil, nossa realidade é diferente.
Temos uma forte tradição de concreto armado e alvenaria, sistemas extremamente versáteis e capazes de produzir construções de excelente qualidade. O problema não está necessariamente nos materiais utilizados, mas no grau de industrialização do processo.
Grande parte da construção brasileira ainda acontece de maneira artesanal.
Em uma mesma obra é comum encontrar inúmeras etapas executadas diretamente no canteiro: cortes, ajustes, misturas, correções e adaptações feitas durante a própria construção. Isso aumenta a dependência da mão de obra, gera desperdícios e pode tornar prazos e custos menos previsíveis.
É importante deixar claro que nenhum dos dois sistemas é perfeito.
O wood frame americano apresenta vantagens importantes: velocidade de execução, menor peso estrutural, facilidade de passagem e manutenção das instalações, bom desempenho térmico quando corretamente especificado e, principalmente, elevado nível de padronização.
Por outro lado, exige projeto detalhado, mão de obra familiarizada com o sistema, controle rigoroso de impermeabilização e proteção adequada contra umidade, fogo, insetos e outros agentes que possam comprometer sua durabilidade.
O concreto e a alvenaria, por sua vez, apresentam grande resistência, durabilidade e familiaridade para o mercado brasileiro. Também são sistemas extremamente adequados para edifícios de múltiplos pavimentos, uma realidade muito presente nas cidades brasileiras.
Suas desvantagens aparecem principalmente quando a construção permanece excessivamente artesanal: obras mais pesadas, maior geração de resíduos, grande quantidade de etapas no canteiro e prazos frequentemente superiores aos de sistemas mais industrializados.
Portanto, talvez a discussão mais interessante não seja madeira contra concreto, nem Estados Unidos contra Brasil.
A verdadeira discussão está entre construção artesanal e construção industrializada.
O Brasil não precisa necessariamente abandonar o concreto ou a alvenaria para construir melhor. Existem sistemas industrializados em concreto, estruturas metálicas, pré-moldados, paredes de concreto, construção modular e diferentes tecnologias capazes de aumentar significativamente a produtividade.
O que precisamos é evoluir na direção de projetos mais compatibilizados, componentes mais padronizados, processos mais previsíveis e uma integração maior entre arquitetura, engenharia, indústria e execução.
Depois de acompanhar diferentes formas de construir, acredito que essa seja uma das principais lições que podemos observar no mercado americano: quando um setor consegue repetir soluções, criar padrões e desenvolver uma cadeia produtiva ao redor deles, a construção deixa de depender tanto da improvisação do canteiro e começa a se aproximar de um processo industrial.
Arquitetura continuará sempre dependendo do lugar, das pessoas e das condições de cada projeto. Mas isso não significa que cada obra precise começar do zero.
Talvez um dos próximos grandes avanços da construção brasileira esteja justamente em encontrar esse equilíbrio: preservar a liberdade e a qualidade da nossa arquitetura, mas construir com cada vez menos improvisação e cada vez mais inteligência, planejamento e eficiência.