Design universal deixa de ser associado apenas à acessibilidade e passa a orientar decisões de projetos em apartamentos, que oferecem mais conforto, praticidade e adaptação ao longo do tempo
Com o número de apartamentos no Brasil crescendo 49% em nove anos, de 9,1 milhões em 2016 para 13,6 milhões em 2025, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do IBGE, aumenta também a importância de projetos capazes de acompanhar as transformações na rotina dos moradores ao longo das décadas. Nesse cenário, incorporadoras de médio padrão, vêm incorporando conceitos de design universal desde a planta, criando imóveis preparados não apenas para o momento da entrega, mas para diferentes fases da vida.
A lógica é simples: quem compra um apartamento hoje provavelmente permanecerá nele enquanto a família cresce, os hábitos mudam e as necessidades evoluem. Por isso, elementos como portas com 80 centímetros ou mais, banheiros sem degraus, corredores com circulação ampliada e vagas de garagem mais confortáveis passam a ser incorporados ao projeto desde sua concepção, reduzindo a necessidade de adaptações futuras.
A vaga de garagem pensada para o carro de ontem
As garagens de muitos prédios antigos ilustram bem o que acontece quando um projeto é desenvolvido apenas para atender à realidade do momento em que foi construído.
Desde os anos 1990, os automóveis ficaram significativamente maiores. Em 2025, pela primeira vez, os SUVs representaram mais da metade das vendas de veículos no Brasil. Segundo a Fenabrave, foram 1.095.642 unidades comercializadas, o equivalente a 54,89% do mercado nacional.
Enquanto um Fiat Uno Mille da década de 1990 media cerca de 1,55 metro de largura, um SUV compacto atual, como o Volkswagen T-Cross, possui aproximadamente 1,76 metro. O crescimento do tamanho dos veículos criou uma situação comum em muitos condomínios: manobras mais difíceis, portas abertas com cuidado excessivo e pouco espaço para acomodar cadeirinhas infantis, compras ou objetos maiores.
Parte desse desafio está relacionada ao dimensionamento das vagas. O Código de Obras de São Paulo de 1992, por exemplo, previa vagas de apenas 2 metros de largura para metade dos empreendimentos residenciais. Em uma vaga desse tamanho, um veículo com 1,76 metro de largura deixa apenas cerca de 12 centímetros livres de cada lado.
O problema não está no carro, mas na incapacidade de a estrutura construída acompanhar mudanças futuras. Uma vez concluído o empreendimento, ampliar uma vaga de garagem torna-se praticamente inviável.
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Design universal: projetar para o uso que muda
É justamente esse tipo de situação que o design universal busca evitar. O conceito consiste em desenvolver ambientes capazes de atender diferentes perfis de usuários e acompanhar mudanças naturais ao longo do tempo, sem a necessidade de adaptações posteriores.
Na prática, isso se traduz em soluções que facilitam o dia a dia desde o primeiro momento: uma porta mais larga permite a passagem confortável de carrinhos de bebê, móveis e compras; um banheiro sem desníveis reduz riscos de acidentes; corredores com maior área de circulação oferecem mais funcionalidade para diferentes momentos da vida.
“O comprador nem sempre associa essas características ao conceito de acessibilidade. Ele percebe o conforto, funcionalidade e facilidade de uso. São atributos que agregam valor ao imóvel desde o primeiro dia e permanecem relevantes ao longo do tempo”, afirma Diogo Marchioto, Superintendente Regional da Vanguard.
Projetar certo custa menos do que adaptar depois
Além dos benefícios de conforto, incorporar essas soluções desde a fase de projeto também representa uma decisão economicamente mais eficiente.
Reformas para adequação de portas, circulação ou banheiros costumam exigir obras civis, aprovações técnicas e intervenções estruturais que elevam significativamente os custos de adaptação quando comparados à incorporação dessas soluções ainda na fase de desenvolvimento do empreendimento.
“Quando o projeto nasce preparado para diferentes usos, o morador evita obras futuras, gastos adicionais e transtornos. Em determinadas situações, como no caso das vagas de garagem, a adaptação posterior sequer é uma alternativa viável”, explica Marchioto.
Um imóvel preparado para as próximas décadas
Especialistas do setor apontam que imóveis concebidos com maior flexibilidade de uso tendem a permanecer mais competitivos ao longo do tempo. Espaços que acomodam diferentes fases da vida, sem exigir intervenções significativas, respondem melhor às mudanças demográficas, familiares e comportamentais da população.
Quem compra seu primeiro apartamento hoje pode ocupá-lo enquanto forma uma família, troca de veículo, envelhece ou passa a trabalhar mais tempo em casa. Um projeto pensado para acompanhar essas transformações reduz a necessidade de mudanças motivadas exclusivamente por limitações da planta.
“Cada vez mais, o mercado percebe que um bom projeto não é apenas aquele que atende às necessidades atuais do morador, mas aquele que continua fazendo sentido anos depois. A tendência é que essas soluções se tornem um padrão esperado pelos compradores”, conclui Marchioto.
Ao olhar para o futuro desde a concepção do empreendimento, incorporadoras deixam de projetar apenas para a entrega e passam a projetar para toda a trajetória de quem vai viver naquele espaço. É uma mudança silenciosa, mas que influencia diretamente a qualidade de vida, a funcionalidade do imóvel e sua valorização ao longo do tempo.