A inteligência artificial (IA) – capacidade de sistemas aprenderem com dados e executar tarefas cognitivas em tempo quase real – emergiu como uma força transformadora de proporções históricas e terá o mesmo impacto para a sociedade que a eletricidade teve. Projeções indicam que a adoção de IA pode adicionar até US$ 15,7 trilhões à economia global até 2030 – um efeito econômico comparável ao PIB da China.
Para a construção civil, essa tecnologia representa muito mais do que uma ferramenta – ela abre uma janela única de oportunidade para se reinventar. Nosso setor historicamente enfrenta baixa produtividade e desperdícios significativos – justamente problemas que a IA resolve em sua essência. De acordo com o relatório Reinventing Construction: A route to higher productivity, do McKinsey Global Institute, um valor de US$ 1,63 trilhão é perdido por ano globalmente devido a ineficiências na construção (obras atrasadas, estouros de orçamento, pagamentos indevidos, multas e etc).
Frente a tamanha oportunidade – e diante de um cenário em que o crédito está mais difícil de acessar e, quando disponível, vem com juros muito mais altos do que no passado -, mover-se rápido nunca foi tão importante. Além de colher ganhos imediatos de eficiência, as empresas que adotarem a IA ainda cedo também poderão antecipar o retorno composto e cumulativo fundamental dessa tecnologia – em que mais dados significam mais aprendizado, que por sua vez significa melhores decisões, que consequentemente gera mais dados de qualidade.
Surge então a pergunta: como implementar a IA com sucesso? Uma estratégia robusta deve se apoiar em três blocos fundamentais:
- Estruturação de dados – Dados são o novo alicerce. Assim como uma obra começa por bases sólidas, a IA exige dados centralizados, de qualidade e confiáveis. Informações financeiras dispersas ou imprecisas podem inviabilizar conclusões confiáveis. Conforme destaca a McKinsey, os conjuntos de dados precisam ser rigorosamente preparados e curados antes de alimentar modelos de IA. Isso implica investir em sistemas integrados, unificar fontes (ERP, planilhas, softwares legados) e garantir a governança desses dados. Executivos do setor devem liderar a construção de um “cadastro único” da empresa, garantindo que todas as áreas alimentem e utilizem a mesma fonte da verdade.
- Utilização de agentes virtuais – aqui, o objetivo é liberar o potencial humano de equipes de back-office através da automação das tarefas operacionais e repetitivas, que hoje consomem cerca de 60% da semana desses profissionais. Imagine eliminar do dia a dia atividades manuais como conferência de notas fiscais, consolidação de planilhas, validação de pagamentos, organização de contratos – tudo isso passando a ser feito por agentes de IA (termo dado a assistentes virtuais inteligentes, movidos por IA). Já existem agentes capazes de executar esses processos seguindo regras e aprendendo com exceções, atuando como verdadeiros “co-pilotos” do seu time. A diferença agora é o nível de autonomia e inteligência dessas ferramentas: estima-se que, até 2030, a IA possa automatizar até 70% das atividades de negócios em quase todas as ocupações, liberando trilhões de dólares em valor econômico. Em vez de temer a substituição, os executivos devem enxergar a automação inteligente como forma de ampliar a capacidade do time – combinando o senso crítico humano com a eficiência proporcionada pela tecnologia. Processos financeiros na construção civil, como gestão de pagamentos a fornecedores, acompanhamento de custos de obras ou controle de recebíveis, podem ser radicalmente otimizados com agentes. O resultado esperado é uma redução drástica de erros, melhoria na qualidade dos dados, ganhos de velocidade e realocação do talento humano para atividades estratégicas que realmente agregam valor ao negócio.
- Consolidação de insights – O terceiro pilar é colher os frutos dos dois primeiros, e fazer a IA agir sobre um grande volume de dados e processos estruturados. Trata-se de identificar padrões ocultos, prever tendências e suportar decisões estratégicas que antes eram impossíveis ou muito trabalhosas. A aplicação aqui é transformar dados em vantagem competitiva. Segundo uma pesquisa da McKinsey, mais de 80% dos CFOs esperam que a IA forneça insights que liberem os funcionários para tarefas de maior valor agregado – por exemplo, análises de viabilidade de novos projetos ou otimização da estrutura de capital. O que antes tomaria semanas agora poderá ser feito em segundos e com mais precisão conforme a IA vasculhar milhões de linhas de dados, encontrar correlações e apontar riscos ou oportunidades, (como tendências de custo de materiais, desvios em obras ou projeções de fluxo de caixa).
Diferente de outras tecnologias, que demoraram a encontrar viabilidade prática dentro da construção civil, a inteligência artificial é intimamente conectada com muitas das nossas necessidades. A questão não é mais se a construção civil vai adotar IA, mas sim em quanto tempo. Empresas que responderem com agilidade construirão uma vantagem difícil de ser copiada. Construirão o novo alicerce sobre o qual se erguerá o próximo ciclo de crescimento do setor. Construirão a infraestrutura sobre a qual a inteligência fluirá, da mesma forma que a última revolução construiu os cabos pelos quais a energia fluiu. E boa sorte para aqueles que deixarem para depois: quem adiar essa transição corre o risco de ficar no escuro – como quem nunca trocou o lampião pela luz elétrica.