O que fazer se seu imóvel está em área de risco

Redação ImobiPress

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Publicado em 07/05/2026 às 11:22 / Leia em 4 minutos

Com chuvas mais intensas e cidades pressionadas por ocupação irregular, imóveis em área de risco devem se proteger antes da obra e exigir decisões técnicas ainda negligenciadas no Brasil

A cena tem se repetido com frequência crescente no Brasil. Bastam algumas horas de chuva intensa para que o que parecia sólido comece a ceder. Muros trincam, pisos se deslocam, encostas deslizam. Em muitos casos, o problema não nasce na tempestade, mas muito antes dela.

Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais mostram que, em 2025, eventos climáticos extremos atingiram diretamente cerca de 336 mil pessoas no país e geraram prejuízos estimados em R$ 3,9 bilhões. Já nos primeiros meses de 2026, temporais intensos afetaram mais de 1,1 milhão de brasileiros, deixando cerca de 25 mil desabrigados e desalojados, segundo levantamentos de prefeituras e entidades municipais.

O avanço simultâneo de eventos climáticos mais intensos e da ocupação urbana desordenada ampliou a vulnerabilidade nas cidades brasileiras. Um levantamento do MapBiomas indica que, nas últimas quatro décadas, a ocupação de áreas suscetíveis a deslizamentos passou de cerca de 14 mil hectares para mais de 43 mil hectares. Hoje, milhões de pessoas vivem em encostas, margens de rios e terrenos baixos, expostas a enchentes e movimentos de massa a cada novo temporal.

Mas é possível proteger um imóvel em área de risco? Para o engenheiro civil Francisco Machado, especialista em gestão de grandes obras, a resposta exige realismo técnico. Nem sempre o risco pode ser eliminado, mas, na maioria dos casos, é possível reduzi-lo de forma significativa. O problema é que, no Brasil, as intervenções ainda acontecem tarde demais. “O maior erro é tentar resolver depois que o problema aparece. Quando surgem rachaduras, afundamento ou deslocamento de piso, a estrutura já está reagindo a uma falha anterior. O risco começa no solo”, afirma.

Antes de qualquer construção, o terreno precisa ser estudado. Sem sondagem e análise adequada de fundação, o imóvel pode nascer sobre uma base instável. Nesse contexto, a chuva deixa de ser a causa principal e passa a atuar como gatilho de um problema já instalado.

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Esse tipo de negligência é mais comum do que parece. O Atlas Digital de Desastres do Cemaden registra mais de 10 mil ocorrências recentes associadas a chuvas intensas, incluindo deslizamentos e inundações que atingiram diretamente áreas urbanas e infraestrutura básica.

Quando o imóvel já está construído, a solução passa por engenharia corretiva. E ela raramente é simples. Exige intervenções técnicas, muitas vezes de alto custo, que envolvem desde contenções estruturais até reconfiguração do terreno. Ainda assim, ignorar o problema tende a ser mais caro e, em casos extremos, pode custar vidas.

Entre as medidas mais utilizadas estão a construção de muros de contenção, a implementação de sistemas de drenagem profunda para controlar a infiltração, o reforço das fundações e a estabilização do solo. Soluções pontuais, feitas apenas para conter sintomas imediatos, costumam falhar diante de novos eventos extremos, especialmente quando o entorno também permanece vulnerável.

Sinais que a estrutura já está reagindo

Nem sempre o risco se manifesta de forma evidente. Em muitos casos, ele aparece em sinais sutis dentro de casa. Portas e janelas que deixam de fechar corretamente, rachaduras diagonais em paredes, pisos que estufam ou desníveis progressivos no chão indicam movimentação estrutural e exigem atenção. “Quando o piso levanta ou trinca sem motivo aparente, já mostra que existe deslocamento em curso. É um alerta importante”, diz Machado.

Um problema que ultrapassa o imóvel

A questão vai além das residências individuais e expõe fragilidades na forma como o país construiu suas cidades. Em 2025, o Cemaden emitiu mais de 2.500 alertas de desastres geo-hidrológicos, a maioria relacionada a enchentes e deslizamentos. A região Sudeste concentrou cerca da metade desses avisos, refletindo a combinação entre densidade populacional e ocupação de áreas vulneráveis.

O que fazer agora para reduzir o risco

Mesmo em áreas críticas, algumas ações ajudam a reduzir a exposição imediata. Buscar avaliação técnica especializada é o primeiro passo. Também é fundamental evitar cortes no terreno sem projeto estrutural, controlar o escoamento da água da chuva, não sobrecarregar encostas e acompanhar qualquer sinal de movimentação do solo.

Com eventos climáticos mais intensos e frequentes, construir bem deixou de ser um diferencial. Em muitos casos, o risco não está no endereço, mas nas decisões que sustentam o que foi construído ali.

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