Toda decisão do Comitê de Política Monetária ocupa manchetes, movimenta dentro e fora do mercado financeiro e reforça a percepção de que o crédito ficará inevitavelmente mais caro. A leitura está correta, mas é insuficiente. O debate costuma tratar todas as modalidades de crédito como se reagissem da mesma forma ao aumento da Selic, quando a principal variável na formação dos juros não é apenas o custo do dinheiro, mas também o risco da operação. Ao ignorar essa diferença, o Brasil perpetua um dos maiores desperdícios financeiros do país. Milhões de proprietários recorrem às linhas mais caras do mercado enquanto mantêm um patrimônio de alto valor completamente desconectado de sua estratégia financeira.
A relação entre juros e risco é um dos princípios mais básicos da atividade bancária. Quanto maior a incerteza sobre o pagamento de uma dívida, maior será o prêmio cobrado pelo credor. É justamente por isso que operações com garantia real costumam apresentar custos significativamente menores do que modalidades sem garantia. Os números mais recentes do Banco Central do Brasil ilustram o tamanho dessa diferença.
Segundo as Estatísticas Monetárias e de Crédito, divulgadas em maio de 2026, a taxa média do crédito livre para pessoas físicas atingiu 63% ao ano em abril, enquanto a inadimplência dessas operações alcançou 7,2%, evidenciando como o aumento do risco pressiona diretamente o custo do crédito. Em outras palavras, não é apenas a Selic que encarece os empréstimos. É a ausência de garantias que amplia esse efeito.
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O problema é que o Brasil continua tratando seus imóveis quase exclusivamente como patrimônio para morar ou acumular riqueza, e não como instrumentos capazes de reduzir o custo do capital. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que cerca de 73% dos domicílios brasileiros são próprios, um percentual elevado mesmo em comparação internacional. Ainda assim, grande parte das famílias continua recorrendo ao crédito pessoal, ao cheque especial ou ao rotativo do cartão para financiar projetos, consumir ou reorganizar dívidas.
O resultado é paradoxal. O país possui uma das maiores massas de patrimônio imobiliário da América Latina, mas utiliza esse ativo de forma muito menos eficiente do que economias desenvolvidas, onde operações de crédito com garantia fazem parte da gestão financeira de famílias e empresas há décadas.
É comum argumentar que, em um ambiente de juros elevados, todas as linhas de crédito inevitavelmente ficam caras. A afirmação é verdadeira apenas até certo ponto. A Selic influencia o custo de captação das instituições financeiras e, por consequência, afeta praticamente todas as modalidades. A diferença está na intensidade desse impacto. Como as operações garantidas apresentam menor risco de perda para o credor, seus spreads tendem a permanecer inferiores aos observados nas linhas sem garantia, mesmo durante ciclos de política monetária restritiva.
O próprio Relatório de Estabilidade Financeira, publicado pelo Banco Central do Brasil em maio de 2026, mostra que o aumento da inadimplência e da percepção de risco continua concentrado principalmente nas operações de crédito livre, reforçando que a precificação do crédito depende tanto das condições macroeconômicas quanto da qualidade das garantias envolvidas.
O maior equívoco, portanto, não é acreditar que a Selic encarece o crédito. É imaginar que ela afeta todas as operações da mesma maneira. Essa simplificação favorece um mercado em que milhões de brasileiros continuam pagando juros compatíveis com operações de alto risco mesmo quando possuem patrimônio suficiente para acessar alternativas mais eficientes. O debate econômico insiste em discutir apenas o preço do dinheiro, quando deveria discutir também a qualidade da estrutura financeira de quem toma crédito.
Enquanto essa mudança de percepção não acontecer, famílias continuarão comprometendo renda desnecessariamente, empresas reduzirão investimentos e o mercado seguirá desperdiçando uma riqueza que já existe.
A Selic continuará subindo e descendo conforme os ciclos econômicos exigirem. O desperdício do patrimônio imobiliário, porém, não depende das decisões do Banco Central. Depende da forma como o país enxerga seus próprios ativos. Em um cenário de juros elevados, o imóvel deixa de ser apenas um bem patrimonial e passa a representar um instrumento de eficiência financeira. Ignorar essa possibilidade significa aceitar custos maiores do que o risco efetivamente justifica. E esse talvez seja o erro mais caro que o debate sobre crédito ainda insiste em esconder.