Que a adoção da IA na construção é um caminho sem volta para as empresas que desejam manter competitividade nos próximos anos não há dúvidas. Mas uma discussão que precisa acompanhar essa evolução é sobre a maneira como a IA vem sendo implementada nos processos, uma vez que o setor tem particularidades técnicas importantes, bem como lida com dados sensíveis que precisam ser protegidos.
A resposta para isso está na governança de tecnologia e na segurança da informação. No desejo e na necessidade de inovar e se destacar no mercado, muitas empresas estão adotando ferramentas genéricas que não estão alinhadas a estes dois pontos e, no médio e longo prazos podem trazer problemas jurídicos e estruturais ao negócio.
Quando falamos de pós-obra, por exemplo, uma resposta equivocada sobre uma garantia contratual, um procedimento técnico ou uma orientação ao proprietário pode gerar conflitos jurídicos, retrabalho operacional e desgaste no relacionamento com o cliente.
Imagine um cliente consultando um assistente virtual para obter dados relacionados a garantias do imóvel e à manutenção preventiva necessária e receber informações genéricas e desalinhadas, porque a IA “alucinou”, ao se basear em todas as informações disponíveis online.
Na prática, isso significa que a inteligência artificial utilizada na construção civil precisa ser parametrizada para atuar sobre informações confiáveis e controladas pela própria construtora, como manuais do proprietário, normas internas, contratos, planos de garantia, registros de assistência técnica e documentações oficiais do empreendimento. Ou seja: uma IA confiável precisa ser desenvolvida sob o conceito de grounding, ou aterramento do conhecimento.
Outro aspecto crítico está relacionado à privacidade dos dados. O pós-obra concentra uma quantidade significativa de informações sensíveis, incluindo dados pessoais de proprietários, históricos de atendimento, documentos, registros de ocorrências e informações sobre as unidades entregues. Nesse contexto, a conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) precisa estar no centro da estratégia de adoção da inteligência artificial.
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As construtoras devem questionar seus fornecedores sobre como essas informações são armazenadas, processadas e protegidas. Também é fundamental garantir que os dados compartilhados com a solução não sejam utilizados para treinar modelos públicos de terceiros ou incorporados a bases externas sem autorização.
A discussão ganha ainda mais relevância diante do aumento das ameaças cibernéticas impulsionadas pela própria inteligência artificial. Um estudo divulgado pela corretora global Howden apontou que a IA generativa está acelerando em até 16 vezes a capacidade operacional de cibercriminosos, tornando ataques mais sofisticados e reduzindo o tempo disponível para resposta das empresas. Esse cenário reforça a necessidade de avaliar segurança e governança antes da implementação de qualquer solução.
Existe também uma questão cultural que precisa ser enfrentada. Ainda é comum encontrar profissionais preocupados com a possibilidade de substituição pela inteligência artificial. Na prática, porém, a experiência tem mostrado um caminho diferente. No setor da construção civil, a IA gera mais valor quando atua como um copiloto das equipes.
Ela pode assumir tarefas repetitivas e operacionais, como consultas a manuais, orientações básicas ao cliente, acompanhamento de solicitações ou agendamento de visitas técnicas. Enquanto isso, engenheiros, analistas e especialistas permanecem concentrados nas atividades que exigem interpretação técnica, tomada de decisão e relacionamento humano.
Quando bem implementada, a tecnologia não substitui conhecimento. Ela potencializa a capacidade das pessoas. Por conta de todos estes fatores, a escolha do fornecedor é tão importante quanto a escolha da tecnologia.
A construção civil possui particularidades operacionais, regulatórias e técnicas que exigem conhecimento especializado. Soluções desenvolvidas por empresas que já possuem experiência no setor, compreendem seus fluxos e trabalham com práticas consolidadas de segurança da informação irão entregar resultados mais consistentes e sustentáveis e transformar a IA em uma solução verdadeiramente estratégica.