O que o mercado imobiliário ainda não entendeu sobre a vida urbana

O que o mercado imobiliário ainda não entendeu sobre a vida urbana

Rodrigo Mendonça, fundador do Grupo Humanidade

Redação ImobiPress

redacao@imobipress.com.br
Publicado em 20/08/2026 às 10:36 / Leia em 4 minutos

Durante muito tempo na vida, o mercado imobiliário mediu o sucesso de um empreendimento por indicadores objetivos: metragem, padrão construtivo, localização e valorização. Esses fatores continuam importantes, mas tenho a impressão de que já não são suficientes para responder à principal pergunta que as pessoas fazem hoje, mesmo sem perceber: como eu quero viver?

Nos últimos anos, vimos crescer discussões sobre saúde mental, pertencimento, mobilidade, qualidade de vida, bem-estar e novas formas de convivência. O lugar onde vivemos deixou de ser somente um patrimônio ou um endereço e passou a representar o espaço onde trabalhamos, descansamos, construímos relações, buscamos equilíbrio e damos forma à nossa rotina. Ainda assim, boa parte do mercado continua tratando o empreendimento como um produto isolado, quando ele faz parte de uma experiência muito mais ampla.

Quem escolhe um lugar para viver está escolhendo vizinhança, rotina, relação com o espaço público e um ambiente que influenciará sua vida pelos próximos anos. Por isso, acredito que desenvolver um empreendimento nunca deveria significar se limitar a ocupar um terreno ou lançar um produto. Antes de tudo, exige interpretar a cidade e compreender como as pessoas desejam viver nela.

Essa é uma tarefa que envolve observar como as pessoas circulam, onde se encontram, quais espaços favorecem a convivência, quais estimulam o isolamento e de que forma um bairro influencia as relações que se constroem ao longo do tempo. São aspectos que dificilmente aparecem em uma planta, mas que determinam a qualidade da experiência urbana.

Quando um projeto nasce exclusivamente para atender a uma lógica financeira, dificilmente deixa um legado para a cidade. Em contrapartida, quando o planejamento começa pelas pessoas, o próprio empreendimento ganha outro significado. Áreas comuns deixam de ser apenas itens de lazer, espaços comerciais passam a estimular permanência e convivência, e ruas deixam de funcionar somente como locais de passagem para se tornarem pontos de encontro.

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Foi essa visão que também transformou a maneira como passei a enxergar os próprios negócios. Durante muito tempo, parecia estranho reunir iniciativas tão diferentes dentro de uma mesma organização. Afinal, o que um loteamento teria em comum com um espaço de convivência, um projeto esportivo ou um cemitério?

Com o tempo, percebi que todos eles respondem à mesma pergunta: como podemos contribuir para que as pessoas vivam melhor a cidade?

Essa forma de enxergar a cidade nasceu da minha própria relação com Juiz de Fora. Depois de quase três décadas atuando em projetos por diferentes regiões do país, escolhi concentrar meus investimentos na cidade onde nasci porque acredito que desenvolvimento urbano também é um exercício de pertencimento. É quando conhecemos a história de um lugar, compreendemos sua identidade e valorizamos as pessoas que vivem ali que conseguimos desenvolver projetos capazes de fortalecer a cidade, e não só ocupar seus espaços.

A vida urbana é construída diariamente pelas relações que desenvolvemos, lugares onde convivemos, oportunidades que oferecemos às novas gerações, memórias que acumulamos e, inevitavelmente, pelos momentos em que nos despedimos das pessoas que fizeram parte dessa trajetória.

Por isso que passei a acreditar que empreendimentos não deveriam ser concebidos como iniciativas isoladas. Quando moradia, convivência, esporte, comércio e memória dialogam entre si, deixam de representar negócios diferentes e passam a compor uma mesma experiência urbana. A cidade deixa de ser um conjunto de construções para se tornar um ambiente capaz de fortalecer vínculos, gerar pertencimento e melhorar a vida cotidiana.

Esse talvez seja um dos principais desafios para quem empreende no setor imobiliário daqui para frente. Nosso papel é interpretar os movimentos da cidade, compreender as transformações no comportamento das pessoas e traduzir essa leitura em projetos que façam sentido ao longo do tempo.

No fim das contas, acredito que o maior valor de um empreendimento está na capacidade de transformar um espaço em um lugar onde as pessoas criam vínculos, constroem memórias e têm vontade de permanecer. Porque cidades são feitas de edifícios, mas são as pessoas que lhes dão significado.

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