CGI pode corrigir uma distorção histórica do crédito brasileiro

CGI pode corrigir uma distorção histórica do crédito brasileiro

Bruno Gama, CEO da FlowCredi

Redação ImobiPress

redacao@imobipress.com.br
Publicado em 02/06/2026 às 16:11 / Leia em 6 minutos

Após décadas dominado por produtos caros de curto prazo, CGI pode corrigir mercado brasileiro e repetir no home equity o crescimento exponencial que transformou o financiamento imobiliário

O mercado de crédito brasileiro construiu, ao longo de décadas, uma assimetria preocupante. O uso do cartão de crédito rotativo — uma das linhas de crédito mais cara do mercado financeiro, com taxas que podem chegar a 100% do valor da dívida principal — somou R$ 109,65 bilhões no primeiro trimestre de 2025. O montante é 9,7% superior na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo dados do Banco Central.

Em contraste, o crédito com garantia de imóvel — que oferece taxas entre 18% e 22% ao ano — movimentou apenas R$ 3,16 bilhões, alta de 25,83% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).

Essa discrepância não reflete apenas uma falha de mercado, mas uma oportunidade histórica de transformação que já começou a se materializar.

A história recente do crédito imobiliário no Brasil oferece o roteiro do que está por vir. No início dos anos 2000, o financiamento para aquisição de imóveis movimentou entre R$ 2 e 5 bilhões. Com a consolidação da alienação fiduciária como instrumento de garantia e o avanço da segurança jurídica, esse mercado alcançou a marca de R$ 220 bilhões de reais em 2024. 

O home equity está no exato ponto de inflexão em que o crédito imobiliário estava há 20 anos. Três fatores estruturais convergem para acelerar seu crescimento: regulação, tecnologia e educação financeira.

O Marco Legal das Garantias, implementado a partir de 2025, representa o primeiro ponto catalisador. Ao permitir a segunda alienação fiduciária sobre o mesmo imóvel e desjudicializar parte do processo de retomada, a nova legislação libera o potencial de alavancagem de milhões de imóveis que estavam juridicamente travados. Um proprietário com financiamento residual de R$ 100 mil em um imóvel avaliado em R$ 1 milhão pode agora acessar até R$ 500 mil adicionais em crédito garantido, algo juridicamente impossível até recentemente. Essa mudança regulatória replica, em essência, o marco das garantias que impulsionou o home equity nos Estados Unidos a partir da década de 1980, quando o mercado saltou de volumes residuais para uma carteira superior a US$ 1 trilhão em duas décadas.

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A tecnologia surge como o segundo pilar desse movimento. Modelos automatizados de avaliação imobiliária (AVMs), integração digital com cartórios e uso de inteligência artificial na análise de crédito estão reduzindo drasticamente o tempo de processamento das operações. O que tradicionalmente levava dois meses, hoje pode ser concluído em dias. Essa velocidade é fundamental porque o tomador de home equity busca liquidez para resolver necessidades prementes, como a quitação de dívidas caras, custear tratamentos médicos, financiar educação ou investir em negócios. A fricção temporal era, até agora, um dos principais inibidores da demanda.

O terceiro fator, e talvez o mais relevante, é a crescente educação financeira da população brasileira. Após anos sofrendo com o efeito bola de neve das dívidas de curto prazo, cada vez mais brasileiros compreendem a diferença entre pagar 100% ao ano no rotativo e cerca de 20% ao ano em um empréstimo garantido. A alfabetização financeira está criando demanda ativa por produtos que, historicamente, exigiam oferta agressiva dos bancos. O consumidor endividado que descobre poder trocar R$ 40 mil em dívidas de cartão de crédito por um empréstimo de R$ 50 mil pagando R$ 550 mensais de parcela ao invés de R$ 3 mil está protagonizando sua própria reestruturação financeira.

Apesar desse potencial evidente, o principal entrave permanece sendo o desconhecimento. Enquanto o rotativo é um produto extremamente conhecido há décadas, tornando-se parte do vocabulário financeiro nacional, o home equity ainda opera na penumbra informacional. Os grandes bancos começaram a ofertar o produto com escala apenas nos últimos três ou quatro anos. Esse gap de divulgação precisa ser atacado não apenas com publicidade tradicional, mas com estratégias de embedded finance que entreguem a solução no contexto das necessidades específicas, como financiamento educacional para famílias com filhos em faculdades de medicina, crédito para reforma arquitetônica, capital de giro para pequenos empresários, etc. A popularização virá quando o produto deixar de ser vendido como “home equity” e passar a ser oferecido como solução contextual para problemas concretos.

Os números internacionais dimensionam o potencial brasileiro. Em países desenvolvidos da Europa e nos Estados Unidos, o estoque de crédito imobiliário e home equity supera 100% do PIB. No Brasil, mal alcançamos 10%. Mesmo desconsiderando as diferenças estruturais entre as economias, é razoável projetar que o Brasil possa atingir 30% a 40% do PIB em crédito garantido por imóveis nas próximas décadas. Isso significaria um mercado de home equity beirando a marca de R$ 100 bilhões em sete a oito anos.

A consolidação do home equity como produto de massa não será apenas uma vitória do sistema financeiro, mas um instrumento de reorganização econômica das famílias brasileiras. Hoje 75% da população está endividada, grande parte desse montante com imóveis que poderiam ser mobilizados para zerar dívidas de três dígitos anuais. Transformar patrimônio imobilizado em liquidez estruturada, com prazos de até 20 anos e taxas civilizadas, representa transferir poder de decisão financeira para quem mais precisa. A jornada para popularizar esse produto exige tecnologia, regulação e, principalmente, comunicação massiva. A próxima década dirá se o Brasil finalmente equilibra sua matriz de crédito ou permanece refém da armadilha do curto prazo.

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