A nova lógica do mercado imobiliário passa pela sustentabilidade    

A nova lógica do mercado imobiliário passa pela sustentabilidade    

Ana Belizário, diretora da Urbem

Redação ImobiPress

redacao@imobipress.com.br
Publicado em 15/06/2026 às 12:54 / Leia em 5 minutos

A agenda ESG deixou de ser um tema secundário nas decisões do mercado imobiliário. Hoje, influencia o acesso ao capital, a percepção de valor dos ativos, o relacionamento com investidores e até a competitividade de incorporadoras e fundos no longo prazo. Nesse contexto, a discussão sobre a sustentabilidade na construção civil amadurece de forma consistente. Não basta mais olhar apenas para a eficiência operacional dos edifícios depois de prontos. No mercado imobiliário, o foco está, sobretudo, no impacto ambiental gerado antes mesmo da entrega das chaves.

Esse movimento amplia a relevância do chamado carbono incorporado, que representa as emissões associadas à extração, fabricação, transporte, instalação, manutenção e descarte dos materiais utilizados em uma obra. Em muitos empreendimentos, especialmente os de grande porte, uma parcela significativa da pegada de carbono total está concentrada justamente na fase construtiva.

Isso muda a lógica da tomada de decisão. A escolha estrutural deixa de ser apenas uma questão técnica ou financeira e passa a ter impacto direto nas metas ambientais corporativas. É nesse ponto que a madeira engenheirada ganha protagonismo.

Sistemas estruturais como CLT (Cross Laminated Timber) e glulam (madeira laminada colada) oferecem uma combinação rara entre desempenho estrutural, industrialização e menor impacto ambiental. Diferentemente de materiais cuja produção emite grandes volumes de carbono, a madeira atua como reservatório natural de CO₂ ao longo de seu ciclo de vida. Quando proveniente de manejo florestal responsável e cadeias rastreáveis, passa a integrar uma lógica construtiva alinhada às metas contemporâneas de descarbonização.

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Trata-se de uma mudança de perspectiva sobre como os edifícios são concebidos. Durante muito tempo no passado, a sustentabilidade na construção esteve associada principalmente à operação do ativo, com foco em eficiência energética, iluminação natural, redução de consumo hídrico e automação predial. Todos esses fatores continuam relevantes. Mas hoje já existe clareza de que um edifício energeticamente eficiente ainda pode carregar uma pegada ambiental elevada se tiver sido construído com sistemas altamente emissores.

Por isso, métricas ligadas ao ciclo de vida completo dos materiais passam a ganhar espaço nas estratégias ESG corporativas. O mercado começa a compreender que o impacto ambiental de um empreendimento não começa quando ele entra em operação, mas na origem dos insumos.

Para incorporadoras e fundos imobiliários, essa discussão possui implicações diretas em emissões de escopo 3, aquelas relacionadas à cadeia de fornecedores e materiais utilizados nos empreendimentos. Tradicionalmente, esse é um dos escopos mais complexos de reduzir porque depende de múltiplos agentes externos e cadeias produtivas longas. Escolhas estruturais mais eficientes ajudam justamente a enfrentar essa dimensão do problema.

Ao optar por sistemas construtivos industrializados em madeira engenheirada, empresas conseguem reduzir emissões associadas à obra e, ao mesmo tempo, ampliar previsibilidade operacional, diminuir desperdícios e racionalizar processos construtivos. Sustentabilidade e eficiência deixam de competir entre si e passam a operar de forma complementar.

Existe ainda um componente importante de mercado imobiliário. Investidores institucionais e gestores de ativos têm incorporado critérios ambientais de forma crescente em suas análises. Ativos alinhados a estratégias robustas de descarbonização tendem a ganhar relevância em um cenário de maior pressão regulatória e exigência de transparência. O tema climático já influencia valuation, percepção de risco e atratividade de portfólio.

Nesse ambiente, a construção em madeira engenheirada não deve ser interpretada apenas como inovação arquitetônica ou tendência estética. É uma resposta objetiva a demandas concretas do setor, como reduzir impacto ambiental, modernizar processos construtivos e aumentar a eficiência da cadeia imobiliária.

O avanço dessa agenda também dialoga com uma transformação mais ampla da construção civil. O setor vive uma transição gradual de modelos artesanais para sistemas industrializados, digitalizados e orientados por dados. A busca por produtividade, previsibilidade e racionalização de recursos passa inevitavelmente pela revisão das tecnologias construtivas utilizadas hoje.

A madeira engenheirada se posiciona no centro dessa mudança porque conecta desempenho técnico, industrialização e agenda climática em uma única solução.

Construir com menos carbono não será apenas um diferencial competitivo nos próximos anos. Será parte das exigências do próprio mercado. E isso significa que as decisões tomadas agora, especialmente sobre materiais e sistemas construtivos, terão impacto direto na capacidade das empresas de cumprir metas ESG, acessar capital e desenvolver ativos mais preparados para o futuro.

Os edifícios do futuro não serão definidos apenas pelo desig, n ou pela localização. Serão definidos também pela inteligência ambiental incorporada em sua estrutura. E a escolha dos materiais terá papel decisivo nessa transformação no setor imobiliário.

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