Escolhas técnicas feitas ainda no projeto impactam custos, prazos e retorno financeiro, aproximando engenharia e estratégia de negócios
Dados recentes da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) indicam crescimento próximo de 3% no setor, impulsionado por obras de infraestrutura e habitação. Ao mesmo tempo, estudos da McKinsey apontam que a produtividade da construção avança cerca de 1% ao ano, ritmo inferior a outros setores, o que pressiona margens e expõe ineficiências estruturais.
Nesse cenário, decisões de engenharia se tornam determinantes para a rentabilidade dos empreendimentos imobiliários.
Para Magnus Bruno Oyama Machado, engenheiro civil e cofundador da Mafrei Construtora e Incorporadora, o retorno financeiro de um empreendimento é definido antes mesmo do início da obra. “A engenharia deixou de ser apenas execução. Hoje, cada escolha técnica precisa ser pensada como decisão financeira. Um sistema construtivo mal definido pode comprometer toda a viabilidade do projeto”, afirma.
Na prática, o impacto é mensurável. Em um empreendimento multifamiliar liderado por ele, a revisão do sistema estrutural reduziu em 23% o consumo de concreto e em 10% o uso de aço, além de acelerar a execução da obra. O efeito foi imediato: aumento de eficiência operacional e um lucro líquido de 29% aos sócios. A decisão, embora técnica, redefiniu a viabilidade financeira do empreendimento.
Essa conexão entre engenharia e resultado financeiro se manifesta em diferentes etapas. A definição do sistema estrutural interfere no peso da edificação, no tipo de fundação e no consumo de insumos. Já o planejamento da obra impacta prazos, custo de mão de obra e riscos de retrabalho. Quando mal coordenados, esses fatores geram custos invisíveis que reduzem a margem final.
“A maior parte das perdas não está nos grandes erros, mas na soma de decisões acumuladas ao longo da obra. Um layout mal planejado, uma logística ineficiente ou uma ordem de execução inadequada geram desperdício contínuo”, explica. Ele destaca que empresas que integram engenharia, suprimentos e planejamento conseguem antecipar problemas e proteger a rentabilidade.
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O avanço dessa visão está diretamente relacionado à profissionalização do setor. Incorporadoras passaram a tratar o projeto como um ativo financeiro, no qual cada variável técnica deve ser analisada sob a ótica de retorno. Isso inclui desde a escolha de materiais até a organização do canteiro.
“Hoje não basta construir bem. É preciso construir com inteligência financeira. A engenharia precisa dialogar com o fluxo de caixa do empreendimento”, afirma.
Essa mudança também exige mais critério na contratação de parceiros. Empresas especializadas em planejamento, compatibilização de projetos e gestão de obra ganham espaço por reduzir riscos e aumentar a previsibilidade. Ainda assim, o alerta é claro: contratar sem avaliar histórico técnico e capacidade de execução pode ampliar custos em vez de reduzi-los.
“O erro mais comum é escolher fornecedores apenas pelo preço. Sem análise técnica, o barato pode sair muito caro ao longo da obra”, afirma.
Com base em sua experiência à frente de projetos, ele destaca cinco decisões de engenharia que impactam diretamente a rentabilidade do empreendimento:
- Definir o sistema construtivo adequado: A escolha entre laje maciça, pré-moldada ou soluções mistas altera consumo de materiais, prazo e custo estrutural.
- Planejar a obra com foco na sequência produtiva: A organização das etapas de execução reduz retrabalho, evita gargalos e melhora o uso da mão de obra.
- Integrar engenharia e suprimentos desde o início: A compatibilização entre projeto e suprimentos evita mudanças tardias e desperdícios.
- Estruturar a logística do canteiro: Fluxo de materiais, posicionamento de estoques e circulação interna impactam diretamente a produtividade e o custo operacional.
- Investir em gestão e controle de dados: Indicadores de desempenho permitem decisões mais rápidas e evitam desvios de custo ao longo da obra.
Engenharia como estratégia
A tendência é que essa integração entre técnica e finanças se torne ainda mais relevante. Com custos pressionados e maior exigência por eficiência, empreendimentos que não incorporarem essa visão tendem a perder competitividade.
“Quem trata engenharia apenas como custo está ficando para trás. Hoje, ela é uma das principais alavancas de rentabilidade no negócio imobiliário”, conclui.