Comportamento, tecnologia e relações humanas influenciam uma nova geração de ambientes e experiências, que também buscam por conexão
Em um cenário marcado pelo avanço acelerado da tecnologia, pela transformação das relações sociais e pela busca crescente por experiências com significado, a forma como as pessoas vivem, consomem e se relacionam com os espaços também está mudando. Questões como pertencimento, autenticidade, criatividade e conexão humana passaram a influenciar não apenas comportamentos, mas também decisões ligadas à arquitetura, ao design e à construção de experiências.
Essas reflexões foram compartilhadas durante um encontro que reuniu profissionais para discutir os principais insights observados na Milan Design Week 2026. Mais do que apontar qual será a cor, a textura ou o acabamento da vez, a proposta foi compreender os movimentos sociais, culturais e tecnológicos que estão por trás dessas escolhas. A partir das percepções coletadas durante o evento, Louise Jacquier, sócia da Pon.to Arquitetura, analisou sobre as transformações que vêm influenciando comportamentos, tendências e a forma como as pessoas se relacionam com os espaços.
Os movimentos por trás das tendências
Entre os temas debatidos durante a apresentação, três macromovimentos se destacaram por ajudar a explicar transformações que vêm impactando desde o comportamento do consumidor até a forma como marcas, empresas e espaços se posicionam: Insularidade, AI Slop e Analog Wellness.
O primeiro deles, a Insularidade, reflete um cenário de instabilidade e incertezas globais. Em meio a crises econômicas, transformações tecnológicas e mudanças sociais aceleradas, as pessoas tendem a buscar refúgio em grupos menores, comunidades de nicho e marcas capazes de transmitir segurança e identificação. Nesse contexto, pertencimento, coerência e confiança passam a ter mais valor do que a busca constante por novidades.
“Quando o cenário se torna mais complexo, cresce a necessidade de encontrar referências estáveis. As pessoas estão buscando ambientes, marcas e comunidades que representam seus valores e ofereçam uma sensação de pertencimento”, explica Louise.
Outro conceito discutido foi o AI Slop, termo utilizado para descrever o aumento da produção de conteúdos gerados por inteligência artificial sem curadoria ou participação humana significativa. Embora a tecnologia represente avanços importantes em produtividade e eficiência, as discussões levantaram reflexões sobre criatividade, repertório e desenvolvimento cognitivo.
A preocupação não está na tecnologia em si, mas na substituição de processos que estimulam pensamento crítico, experimentação e construção de conhecimento. Em um momento em que a inteligência artificial se torna cada vez mais presente, cresce também a valorização da autoria, da curadoria e das experiências genuinamente humanas.
“A inteligência artificial tem um enorme potencial para ampliar capacidades, mas existe uma preocupação sobre o que acontece quando eliminamos o processo criativo. Muitas vezes é justamente nele que surgem os aprendizados, as conexões e a inovação”, afirma Jacquier.
Como contraponto ao excesso de interações digitais, o evento também destacou o crescimento do Analog Wellness, movimento que representa a busca por experiências presenciais e conexões construídas fora do ambiente virtual. Clubes de corrida, aulas de cerâmica, clubes de leitura e outras atividades coletivas aparecem como exemplos de uma sociedade que procura desacelerar, recuperar momentos de presença e fortalecer relações construídas no mundo físico.
A tendência ajuda a explicar por que espaços voltados à convivência, ao aprendizado e às experiências compartilhadas vêm ganhando relevância em diferentes setores, da arquitetura ao varejo.
“Não se trata de abandonar a tecnologia, mas de encontrar equilíbrio. Existe uma necessidade crescente de viver experiências mais tangíveis, que envolvam presença, troca e conexão humana”, destaca.
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O retorno do fazer humano
Dentro desse contexto, a Inteligência Artesanal surgiu como uma das principais reflexões apresentadas durante o evento. O conceito propõe que a tecnologia continue avançando, mas sem substituir a criatividade, o conhecimento e a sensibilidade humana.
Essa valorização também aparece na ideia de que o processo passa a ter tanto valor quanto o resultado final. Em vez de destacar apenas produtos acabados, marcas e criadores buscam mostrar histórias, técnicas e processos de produção, transformando o percurso em parte da experiência.
“Existe uma valorização crescente daquilo que carrega intenção, história e autoria. Em um momento em que a tecnologia se torna cada vez mais acessível, o diferencial passa a estar justamente naquilo que é genuinamente humano”, afirma Louise.
Ao mesmo tempo, cresce o movimento de expansão das marcas para ecossistemas culturais. Mais do que comercializar produtos ou serviços, empresas passam a investir na construção de comunidades, experiências e universos de significado capazes de gerar identificação com o público.
A ascensão dos “fourth spaces”
Outro conceito discutido em Milão foi o dos chamados “fourth spaces”. Considerados uma evolução dos tradicionais terceiros espaços de convivência, esses ambientes surgem como locais destinados à criação de comunidade e conexão.
Se a casa representa o espaço do viver, o trabalho, o espaço da produção e os terceiros espaços os ambientes de socialização, os fourth spaces propõem encontros motivados por interesses, valores e experiências compartilhadas, aproximando o universo digital das interações presenciais.
O movimento reforça uma demanda crescente por pertencimento em um contexto cada vez mais digitalizado.
“As pessoas continuam conectadas o tempo todo, mas isso não significa que se sintam pertencentes. Os fourth spaces surgem justamente para atender essa necessidade de encontro, troca e construção de comunidade”, destaca.
Espaços que refletem mudanças sociais
As reflexões apresentadas em Milão mostram que as tendências do design contemporâneo estão cada vez menos ligadas apenas à estética. O que se observa é uma tentativa de responder a transformações culturais, tecnológicas e comportamentais que impactam a forma como as pessoas se relacionam com o mundo.
Nesse contexto, os espaços deixam de ser apenas cenários para assumir um papel ativo na construção de experiências, comunidades e vínculos, refletindo uma sociedade que busca cada vez mais significado, autenticidade e conexão.
“Hoje, projetar espaços vai muito além de definir formas ou materiais. Trata-se de entender comportamentos e criar ambientes capazes de gerar experiências, conexões e senso de pertencimento”, conclui.