Com avanço do retrofit acelerando a requalificação de edifícios nos grandes centros, construtoras passam a adotar tecnologias para reduzir riscos técnicos e financeiros
O retrofit ganhou escala no mercado imobiliário brasileiro, e os números projetados pela Caixa Econômica Federal ajudam a dimensionar esse movimento: o segmento pode movimentar cerca de R$ 40 bilhões por ano até 2040, com crescimento médio de 15% ao ano na próxima década. À medida que a requalificação de edifícios antigos avança nos grandes centros urbanos, cresce também uma pressão operacional associada a esse volume: reduzir as incertezas técnicas inerentes a obras realizadas sobre estruturas cujo estado real raramente está plenamente documentado.
Em projetos de requalificação, falhas no levantamento do edifício existente tendem a se transformar em incompatibilidades entre projeto e execução, elevando custos, atrasando cronogramas e ampliando disputas contratuais ao longo da obra. Na Construct IN, ecossistema de soluções voltado à gestão de obras baseada em captura da realidade, a demanda por serviços de nuvem de pontos aplicados a projetos de retrofit cresceu cerca de 40% nos últimos seis meses. Segundo a empresa, o movimento reflete uma mudança no perfil de construtoras e incorporadoras, cada vez menos dispostas a trabalhar com estimativas em ativos antigos.
Para Tales Silva, CEO da empresa, a transição não é acidental.
“A construção civil brasileira está abandonando o estigma de setor analógico para entrar na era da governança e dos dados. O mercado amadureceu e agora entende que os dados operacionais do canteiro são ativos estratégicos”, afirma.
A busca por levantamentos tridimensionais mais precisos ganhou espaço principalmente em projetos onde os riscos do retrofit se manifestam com mais intensidade. Em edifícios antigos, obras lidam com incertezas que só se revelam ao longo da intervenção, como corrosão oculta de armaduras, fundações com capacidade de carga desconhecida e a possibilidade de que cada parede demolida exponha um problema não previsto. A compatibilização entre projeto contemporâneo e estrutura existente amplifica esse risco.
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É para mapear exatamente essas variáveis que a nuvem de pontos tem ganhado espaço no fluxo de projetos de maior complexidade. A tecnologia utiliza scanners a laser para criar réplicas tridimensionais milimétricas de edificações existentes, permitindo que arquitetos e engenheiros trabalhem sobre uma representação digital precisa do imóvel antes do início das intervenções.
“No retrofit, qualquer divergência entre projeto e realidade física impacta diretamente prazo, custo e execução”, explica Silva.
Segundo o executivo, a limitação dos métodos tradicionais de medição, ainda baseados em trenas, croquis e levantamentos manuais, se torna mais evidente em edifícios antigos, onde deformações estruturais e inconsistências nem sempre aparecem nas etapas iniciais do projeto. Na avaliação dele, a tecnologia reduz a subjetividade dos levantamentos ao fornecer uma referência geométrica mais confiável para todos os envolvidos na obra, diminuindo retrabalho, melhorando a compatibilização dos projetos e ampliando a previsibilidade da execução.
Pressão urbana acelera transformação
O avanço do retrofit nos grandes centros urbanos ajuda a acelerar esse movimento. A escassez de terrenos em regiões consolidadas e a ressignificação de edifícios corporativos após a pandemia ampliaram o interesse pela requalificação de ativos existentes, aumentando também a necessidade de ferramentas capazes de reduzir incertezas técnicas antes do início das intervenções.
Para a empresa, a tendência é que a digitalização da captura da realidade deixe de ser tratada como diferencial tecnológico e passe a integrar o fluxo padrão de obras de maior complexidade nos próximos anos.
“A construção civil brasileira está entrando em uma lógica mais orientada por governança, rastreabilidade e validação técnica. A discussão deixa de ser interpretativa e passa a ser baseada em evidência”, conclui o CEO.