Elementos como cobogós e muxarabis vazados favorecem a ventilação natural e reduzem a dependência de climatização artificial
Em pleno século XXI, quando arquitetos recorrem a softwares de simulação térmica e materiais de alta tecnologia para enfrentar as ondas de calor, algumas das soluções mais eficientes para refrescar uma casa nasceram há centenas de anos.
Muito antes de existirem aparelhos de ar-condicionado, diferentes culturas desenvolveram elementos arquitetônicos capazes de controlar a entrada de luz, favorecer a ventilação cruzada e reduzir o aquecimento dos ambientes.
Cobogós e muxarabis fazem parte do conjunto de estratégias conhecidas como soluções passivas de conforto térmico, que utilizam a própria arquitetura para controlar ventilação, insolação e temperatura, reduzindo a necessidade de equipamentos elétricos.
Além de contribuir para o conforto térmico, esses elementos enriquecem o projeto arquitetônico. Seus vazados filtram a luz natural e projetam desenhos de luz e sombra que mudam ao longo do dia, conferindo dinamismo e personalidade aos ambientes.
O interesse por estratégias passivas de conforto térmico cresce à medida que arquitetos buscam reduzir o consumo de energia sem abrir mão do bem-estar.
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Estudos sobre arquitetura bioclimática mostram que elementos capazes de favorecer a ventilação cruzada, controlar a incidência direta do sol e permitir a dissipação do calor podem melhorar significativamente a sensação térmica percebida nos ambientes internos e diminuir a dependência de sistemas artificiais de climatização.
Pesquisas desenvolvidas pelo Laboratório de Eficiência Energética em Edificações (LabEEE), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), apontam que decisões tomadas ainda na fase de projeto, como orientação solar, sombreamento de fachadas e ventilação natural, exercem influência direta no desempenho térmico das edificações.
Já estudos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde os cobogós nasceram, demonstram que elementos vazados funcionam como filtros climáticos, favorecendo a circulação contínua do ar ao mesmo tempo em que reduzem a incidência direta da radiação solar sobre as fachadas.
O princípio é relativamente simples. Enquanto superfícies totalmente fechadas dificultam a circulação do ar e acumulam calor, elementos vazados favorecem a renovação constante da ventilação.
Quando posicionados em paredes opostas ou combinados com aberturas em diferentes alturas, potencializam a ventilação cruzada e o chamado “efeito chaminé”, em que o ar quente sobe naturalmente e é substituído por ar mais fresco.
Do Oriente Médio ao modernismo brasileiro
Com origem na arquitetura islâmica do Oriente Médio e Norte da África, o muxarabi é uma treliça vazada, que permite a ventilação cruzada, filtra a luz do sol e faz divisória entre ambientes, dando mais privacidade.
Tradicionalmente feitos de madeira, os muxarabis hoje também podem ser produzidos em MDF, alumínio, aço, poliestireno e fibras naturais, materiais que ampliam as possibilidades de acabamento, durabilidade e aplicação em diferentes tipos de projetos.
A técnica do muxarabi veio ao Brasil com os colonizadores portugueses no século XVI, onde foi integrada a casarões coloniais.
Já os cobogós, blocos vazados criados em 1929 em Recife, foram inspirados nos muxarabis. O nome faz referência às primeiras sílabas dos sobrenomes dos três criadores, que patentearam a invenção: o português Amadeu Oliveira Coimbra, o alemão Ernest August Boeckmann e o brasileiro Antônio de Góis.
Da mesma forma que os muxarabis, os cobogós foram desenhados para amenizar as altas temperaturas, com a ventilação natural e entrada de luz, ao mesmo tempo que garantem a privacidade dos moradores. Inicialmente produzido em concreto, o cobogó se tornou um grande símbolo da arquitetura modernista brasileira.