Especialista explica a ordem de execução e mostra como decisões antecipadas podem evitar quebradeiras e retrabalhos futuros
Em uma obra, avançar mais rápido nem sempre significa ganhar tempo. Quando uma etapa é executada antes que as decisões e serviços que dependem dela estejam resolvidos, o que parecia agilidade pode resultar em demolição, desperdício de materiais, horas adicionais de mão de obra e atrasos no cronograma.
Um estudo publicado pela American Society of Civil Engineers (ASCE), com dados de 359 projetos de construção, identificou que os custos diretos de retrabalho equivaleram, em média, a 5% do custo total dos projetos analisados.
O retrabalho pode ocorrer por diferentes motivos, mas a execução de um serviço antes de haver informação suficiente para avançar é um dos problemas recorrentes nos canteiros. “O erro mais comum é executar antes de ter informação suficiente”, afirma o arquiteto Jeferson Branco.
Entre os exemplos, já vistos pelo especialista, estão fechar uma parede de drywall sem testar as instalações, assentar revestimentos antes do teste de impermeabilização, pintar uma superfície que ainda receberá intervenções ou encomendar móveis planejados antes da conferência final das medidas.
Segundo o arquiteto, o problema está relacionado à própria lógica de precedência da construção. Não existe uma sequência única que possa ser aplicada indistintamente a toda obra, mas cada etapa cria condições para a seguinte.
“Em geral, resolvemos primeiro o que sustenta o espaço e o que ficará escondido; depois vêm os fechamentos, as regularizações e as superfícies; por último, os elementos de acabamento”, explica.
É preciso controlar a dependência entre as etapas construtivas
A ordem de execução começa, na realidade, antes da entrada das equipes no canteiro, segundo o arquiteto. É nessa fase que devem ser definidos os elementos que ficarão embutidos ou condicionarão etapas posteriores. Fazem parte dessa etapa inicial o levantamento, o projeto executivo, as aprovações, o orçamento, o cronograma e o planejamento da compra de materiais.
Em seguida, de maneira geral, vêm mobilização e proteção do local, demolições e eventuais adequações estruturais, alvenarias e fechamentos, instalações, impermeabilização, regularizações, revestimentos, pintura e, por fim, os acabamentos e a entrega.
Essa sequência, porém, não significa que todos os serviços precisem esperar o anterior terminar completamente. Dependendo do sistema construtivo, da escala e da logística, diferentes frentes podem avançar simultaneamente em setores distintos. O ponto fundamental é controlar as dependências entre elas.
É o que acontece, por exemplo, com as instalações elétricas, hidráulicas, de dados, climatização e automação. Esses sistemas precisam ser definidos ainda no projeto e compatibilizados com o layout, a iluminação, a marcenaria e os equipamentos.
Na execução, tubulações, eletrodutos, caixas e pontos devem ser instalados e testados antes que paredes, forros ou outras camadas sejam fechados.
Quando uma decisão é tomada depois, a intervenção pode atingir aquilo que já foi executado.
“Decisões tardias podem exigir rasgos em superfícies prontas, comprometer a impermeabilização, gerar interferências com a estrutura ou com outras redes e deixar pontos escondidos atrás de móveis”, explica Jeferson.
O mesmo princípio vale para as etapas que envolvem umidade e regularização, de acordo com Jeferson. O contrapiso, por exemplo, depende de que níveis, caimentos, ralos e redes sob o piso estejam definidos.
Já a impermeabilização exige uma base preparada, tempo de cura e teste de estanqueidade antes de receber a proteção e o revestimento. A antecipação de uma etapa pode aprisionar umidade e provocar fissuras, manchas ou descolamentos.
Por isso, os chamados “tempos de espera” não devem ser confundidos com tempo perdido. São parte da própria execução. A pintura, por exemplo, deve ocorrer quando rebocos, massas, drywall e forros estiverem secos, enquanto a última demão tende a ficar para uma fase próxima do final, depois dos trabalhos que geram pó ou impacto.
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Acabamentos também começam a ser definidos no início
Embora sejam instalados nas fases finais, pisos, rodapés, portas e marcenaria precisam ser considerados muito antes de chegar a hora da instalação. A espessura do piso interfere nos níveis do contrapiso, nas transições entre ambientes, nas soleiras, nos ralos, na altura das portas e nos encontros com os móveis.
A marcenaria é um exemplo clássico. Fisicamente, os móveis planejados costumam estar entre os últimos elementos a entrar na obra, mas precisam ser pensados desde o projeto. Sua definição interfere na localização de tomadas, pontos hidráulicos e de dados, reforços de paredes, nichos, iluminação, ventilação e folgas para portas, gavetas e equipamentos.
Por isso, uma medida preliminar não substitui a conferência final. Segundo Jeferson, a medição definitiva deve ser feita depois que paredes, pisos e revestimentos estiverem prontos e antes da fabricação. Pequenas diferenças acumuladas durante a execução podem fazer com que uma tomada fique atrás de um armário, uma porta bata em uma gaveta ou uma bancada deixe de encaixar corretamente.
“Decidir tudo no fim quase sempre resulta em recortes e encontros improvisados”, afirma.
Rodapé invertido exige outra sequência
Há soluções de acabamento que, por suas características construtivas, alteram a ordem convencional de instalação. É o caso do rodapé invertido, que precisa ser previsto ainda no planejamento da obra e instalado antes do piso.
“Como o rodapé invertido é feito de uma forma oposta à instalação de um rodapé convencional, ele é instalado antes do piso”, explica Rodrigo Gante, especialista em marketing e posicionamento de marcas da Homeney Acabamentos.
Segundo Gante, a antecipação é importante porque o sistema cria uma cavidade para dentro da parede, que precisa encontrar o piso na altura e no acabamento previstos. Se o piso já estiver instalado até a parede, a execução posterior do rodapé invertido pode dificultar o acabamento e exigir adaptações.
Para situações em que a decisão é tomada posteriormente, ele recomenda a utilização de rodapés de alumínio sobrepostos, que, segundo ele, não dependem da mesma preparação da parede.
O exemplo mostra por que a definição dos acabamentos não deve ser deixada apenas para o final da obra. A escolha de uma solução pode determinar detalhes construtivos que precisam estar resolvidos antes mesmo de outras superfícies serem concluídas.
Planejamento evita que uma decisão pequena vire uma grande quebradeira
Na prática, muitos dos problemas que aparecem no final da obra começam em escolhas feitas cedo demais ou tarde demais. Alterar uma tomada em uma parede já revestida, deslocar um ralo depois da execução do piso ou fechar uma parede antes de testar as instalações pode desencadear uma sequência de demolição e reconstrução.
O responsável técnico tem papel central nesse processo, ao compatibilizar os projetos, organizar as interfaces entre as equipes, estabelecer pontos de controle e acompanhar prazos de aprovação, compra e execução.
A ordem pode variar conforme o projeto, mas alguns princípios permanecem: instalações devem ser testadas antes de serem fechadas, impermeabilizações devem ser executadas e verificadas antes do revestimento e os tempos de cura e secagem precisam ser respeitados.
Para quem constrói ou reforma, a lógica é simples: antes de começar a quebrar ou construir, é preciso definir tudo o que possa interferir em infraestrutura, níveis, vãos, impermeabilização ou itens sob medida. Quanto maior o impacto de uma mudança posterior, mais cedo essa decisão precisa ser tomada.
“Quanto mais caro e destrutivo for mudar uma decisão depois, mais cedo ela precisa ser tomada”, resume Jeferson.