A Industrialização amplia a previsibilidade, reduz desperdícios e avança em empreendimentos residenciais e corporativos.
A industrialização da construção civil vem mudando não apenas a execução das obras, mas também a maneira como os empreendimentos são concebidos. Com a adoção de estruturas pré-fabricadas, fachadas industrializadas, sistemas modulares, steel frame e outros métodos construtivos, decisões que antes poderiam ser tomadas durante a obra precisam ser antecipadas e coordenadas desde as primeiras etapas do projeto.
Para Grazzieli Gomes Rocha, sócia-diretora da AFLALO/GASPERINI ARQUITETOS, a mudança altera a própria lógica de desenvolvimento dos empreendimentos. Arquitetura, estrutura, instalações, fornecedores e métodos de montagem passam a ser pensados de maneira integrada.
“A industrialização muda a própria lógica de desenvolvimento do projeto. Em um processo convencional, parte das decisões e adaptações acaba sendo resolvida durante a obra; quando adotamos sistemas industrializados, como estruturas pré-fabricadas, fachadas industrializadas ou sistemas modulares, essas definições precisam estar coordenadas desde as etapas iniciais”, explica Grazzieli.
Com esse planejamento antecipado, o projeto passa a ter um papel mais estratégico na execução. Segundo a especialista, o canteiro também muda de dinâmica e passa a se aproximar de uma operação de montagem.
“O canteiro passa gradualmente de um ambiente de adaptação para uma operação de montagem, na qual cada componente precisa chegar no momento e na condição previstos. Essa mudança exige um nível maior de coordenação e planejamento”, destaca.
Mais produtividade e menos desperdício
Entre os principais ganhos da industrialização estão produtividade, controle de qualidade, redução de desperdícios e maior previsibilidade da execução. A fabricação em ambiente industrial permite maior controle sobre os componentes, enquanto a montagem reduz etapas artesanais e a dependência de mão de obra intensiva.
“Os ganhos mais evidentes estão na produtividade, no controle de qualidade e na redução das incertezas da obra. A fabricação em ambiente industrial permite maior controle sobre os componentes, enquanto a montagem reduz etapas artesanais, desperdícios e a dependência de mão de obra intensiva”, afirma Grazzieli.
Um exemplo citado pela especialista é o BLVD.Alti da Arqos Urbanismo, em Alphaville (SP). No empreendimento, a combinação entre estrutura pré-moldada, steel frame e drywall possibilitou uma redução aproximada de 30% na equipe necessária em comparação com uma solução estrutural convencional em concreto moldado in loco. A previsão também é de entrega quatro meses antes do cronograma original.
Além da produtividade, a industrialização pode contribuir para reduzir impactos ambientais por meio do uso mais racional dos materiais, da menor geração de resíduos e da redução das movimentações no canteiro.
“Utilizar os materiais de maneira mais racional, gerar menos resíduos e reduzir movimentações no canteiro significa diminuir parte dos impactos da construção. A produtividade, nesse sentido, deixa de ser apenas uma questão econômica e passa a ser também uma estratégia de sustentabilidade”, avalia a especialista.
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Industrialização não significa padronização
A adoção de componentes produzidos industrialmente não elimina a liberdade arquitetônica. Para Grazzieli, o desafio está em incorporar as características do processo industrial desde o início do projeto, sem abrir mão das decisões que dão identidade ao empreendimento.
“A arquitetura continua tendo liberdade para trabalhar proporções, modulação, materiais, texturas e diferentes sistemas de fachada. O desafio está em incorporar essas decisões do processo industrial desde o início do projeto”, explica.
A indústria pode fornecer componentes padronizados ou modulados, enquanto o projeto define como eles serão combinados de acordo com cada terreno, programa e contexto. Nesse processo, a atuação do arquiteto ganha ainda mais importância.
“Quanto mais racionalizado é o processo construtivo, maior é a responsabilidade do arquiteto em agregar valor ao que não pode ser simplesmente repetido: a qualidade espacial, a experiência do usuário, a relação com o lugar e a identidade do edifício”, destaca Grazzieli.
O desafio de ganhar escala no Brasil
Apesar dos avanços, a industrialização ainda enfrenta obstáculos para se disseminar no país. Um deles é a própria cultura construtiva brasileira, historicamente baseada na capacidade de adaptação do canteiro.
“O primeiro desafio é cultural. O setor brasileiro ainda possui uma tradição construtiva muito baseada na capacidade de adaptação do canteiro, em que problemas são frequentemente solucionados durante a execução. A industrialização exige uma mudança dessa lógica e uma maior integração de toda a cadeia”, aponta a especialista.
A mudança também envolve mão de obra, fornecedores, normas técnicas e modelos de contratação. Enquanto há menor disponibilidade de profissionais para atividades essencialmente artesanais, os sistemas industrializados demandam trabalhadores com maior qualificação técnica.
“A construção civil enfrenta uma redução na disponibilidade de profissionais para atividades essencialmente artesanais, enquanto a industrialização demanda trabalhadores com maior qualificação técnica. Essa transformação pode elevar a produtividade do setor e, ao mesmo tempo, criar novas oportunidades profissionais”, afirma.
Outro desafio está relacionado aos aspectos regulatórios e tributários. Segundo Grazzieli, os sistemas industrializados podem enfrentar custos que não refletem integralmente os ganhos de produtividade do modelo.
“Políticas de incentivo, simplificação tributária e mecanismos que favoreçam a fabricação e a montagem industrializada poderiam acelerar a adoção dessas tecnologias e tornar seus benefícios mais competitivos”, avalia.
Sistemas combinados devem avançar
Para os próximos anos, a tendência apontada pela especialista é de uma utilização cada vez maior de diferentes sistemas construtivos dentro de um mesmo projeto. Concreto pré-fabricado, estruturas metálicas, madeira engenheirada, steel frame, fachadas industrializadas e componentes modulares podem ser escolhidos de acordo com as características de cada empreendimento.
“Durante o desenvolvimento dos projetos, devemos avançar na utilização combinada de sistemas e a evolução das ferramentas digitais também será fundamental para coordenar tecnologias, fabricação e montagem”, afirma Grazzieli.
Outra mudança é a chegada da industrialização a empreendimentos mais complexos. Segundo a arquiteta, estruturas pré-fabricadas já começam a ultrapassar aplicações tradicionalmente associadas a galpões, centros logísticos e edifícios industriais.
“O movimento mais importante será a expansão da industrialização para programas mais complexos. Os sistemas de estruturas pré-fabricadas, por exemplo, já não estão restritos a galpões, centros logísticos e edifícios industriais; começam a alcançar empreendimentos residenciais e corporativos de alto padrão”, destaca.
Nesse cenário, a industrialização não deve significar a repetição de um mesmo modelo, mas a combinação de diferentes soluções para atender às particularidades de cada projeto.
“O futuro não está em criar tudo da mesma maneira, e sim em combinar sistemas industrializados de forma inteligente e criativa para desenvolver projetos mais eficientes e qualitativos”, conclui Grazzieli.