Por que a tecnologia entrou no debate sobre moradia no Brasil?

Redação ImobiPress

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Publicado em 02/07/2026 às 13:11 / Leia em 4 minutos

Especialista explica como a tecnologia facilita o acesso ao aluguel formal, mas a solução do déficit habitacional exige ações coordenadas entre mercado e poder público

Mesmo com uma leve melhora nos indicadores nos últimos anos, o déficit habitacional continua sendo um dos maiores desafios sociais do Brasil. Dados da Fundação João Pinheiro (FJP), principal referência nacional sobre o tema, apontam que o país ainda convive com um déficit de aproximadamente 5,9 milhões de moradias, afetando milhões de famílias que enfrentam dificuldades para acessar uma habitação adequada.

O problema vai muito além da falta de imóveis. Segundo a FJP, o principal componente do déficit habitacional está relacionado ao peso que a moradia exerce sobre o orçamento familiar. Quanto menor a renda, maior tende a ser o comprometimento financeiro com aluguel e habitação. O cenário também reflete desigualdades sociais históricas, impactando de forma mais intensa mulheres negras e famílias em situação de vulnerabilidade.

As consequências são sentidas diariamente nas grandes cidades. A dificuldade de acesso à moradia empurra famílias para regiões cada vez mais distantes dos centros urbanos, ampliando o tempo de deslocamento, pressionando a infraestrutura das cidades e reduzindo o acesso a oportunidades de emprego, educação e serviços públicos.

Para Caio Belazzi, CEO da Alpop, o tamanho do desafio exige que o país abandone a busca por soluções únicas e passe a olhar para diferentes instrumentos capazes de atuar de forma complementar.

“Apesar da leve redução observada nos últimos anos, o déficit habitacional brasileiro continua sendo um problema de enorme magnitude. Estamos falando de milhões de famílias que ainda enfrentam dificuldades para acessar uma moradia adequada, o que gera impactos sociais, econômicos e urbanos em larga escala”, afirma.

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Nos últimos anos, programas habitacionais como o Minha Casa Minha Vida tiveram papel importante na ampliação do acesso à casa própria. No entanto, especialistas defendem que o tamanho do déficit exige uma estratégia mais ampla, que inclua também políticas voltadas ao mercado de locação.

A discussão ganha relevância porque o aluguel passou a ocupar um papel cada vez mais central na forma como os brasileiros acessam moradia. Dados dos censos demográficos mostram que o mercado de locação cresceu de forma consistente nas últimas décadas, tornando-se uma alternativa cada vez mais presente na realidade das famílias.

Segundo Belazzi, embora exista oferta de imóveis em diversas regiões, muitas famílias de baixa renda permanecem excluídas do mercado formal devido às exigências de garantias locatícias e à dificuldade de comprovação de renda.

“A tecnologia pode ajudar a reduzir barreiras históricas que dificultam o acesso das famílias de menor renda ao mercado formal de aluguel. Ao conectar imobiliárias, proprietários e locatários por meio de mecanismos mais eficientes de análise e garantia, é possível ampliar as oportunidades de acesso à moradia”, explica.

Na prática, soluções digitais podem facilitar a aprovação de contratos, reduzir burocracias e criar mecanismos alternativos de garantia locatícia, permitindo que famílias tenham acesso a imóveis mais próximos de regiões com maior oferta de empregos e serviços.

No entanto, o executivo ressalta que a tecnologia não deve ser vista como uma solução isolada para um problema estrutural.

“Falar apenas de tecnologia para enfrentar o déficit habitacional seria simplificar um desafio extremamente complexo. A inovação pode colaborar muito, mas a solução passa por uma articulação entre políticas públicas de aquisição, iniciativas voltadas à locação, participação do mercado imobiliário e atuação das imobiliárias, que desempenham papel fundamental na proteção dos direitos previstos pela Lei do Inquilinato”, destaca.

Experiências internacionais mostram que países que obtiveram avanços relevantes na redução do déficit habitacional combinaram programas de financiamento, subsídios à moradia, locação social e mecanismos de incentivo ao mercado de aluguel. Para especialistas, o Brasil pode seguir um caminho semelhante, adaptando essas iniciativas à sua realidade econômica e social.

“Não existe uma única resposta para um problema dessa dimensão. O que existe é a necessidade de coordenação entre diferentes agentes. Quando políticas públicas, mercado imobiliário e tecnologia atuam juntos, aumentam as chances de oferecer moradia digna para milhões de brasileiros”, conclui Belazzi.

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