O litoral norte catarinense está mudando como os apartamentos são projetados no Brasil e morar, trabalhar e se hospedar no mesmo espaço deixou de ser exceção
O turismo sempre moldou a economia das cidades litorâneas. Agora, ele começa a moldar também a arquitetura. Em 2025, o litoral norte de Santa Catarina, com apenas 490 km² de extensão territorial, consolidou-se como o quinto maior mercado imobiliário do Brasil, movimentando R$13,47 bilhões em Valor Geral de Vendas e mais de 9 mil unidades comercializadas, segundo dados da plataforma DWV. Para os arquitetos, esse movimento representa uma mudança silenciosa, porém profunda, na forma de projetar apartamentos.
A era do apartamento híbrido
“O imóvel contemporâneo precisa atender dois perfis ao mesmo tempo: o morador fixo e o usuário temporário. Isso exige layouts intuitivos, circulações claras, armazenamento inteligente e materiais resistentes, de fácil manutenção”, explica Giovanni Bellincanta, arquiteto, urbanista e sócio-proprietário da Bellincanta Arquitetura.
Para Bellincanta, é fundamental não confundir eficiência com padronização hoteleira. “Não se trata de hotelizar o residencial. Trata-se de torná-lo mais eficiente”, afirma. A do apartamento híbrido busca funcionalidade sem abrir mão da identidade e do conforto de quem morar e é exatamente aí que reside o seu valor.
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Airbnbização consciente
O debate sobre o impacto do short stay nas cidades é polarizado. Do ponto de vista arquitetônico, porém, o efeito é inequívoco: o modelo exige unidades mais inteligentes.
“Um apartamento que funciona bem para aluguel de temporada é compacto, tem layout racional, áreas comuns qualificadas e boa localização. Curiosamente, essas são exatamente as mesmas características que definem um bom imóvel para morar. A arquitetura encontra, nesse ponto, uma convergência entre moradia e hospitalidade que seria difícil de prever há uma década”, observa Bellincanta.
O edifício como experiência
A influência do turismo não se limita ao interior das unidades. Ela redefine o edifício como um todo. Rooftops mais ativos, espaços de convivência acolhedores e ambientes que funcionam tanto para moradores quanto para hóspedes transformam o edifício em parte da experiência de habitar e isso se reflete diretamente na liquidez do imóvel.
“Essa flexibilidade não é um atributo de mercado, ela nasce no projeto. Um apartamento bem projetado já contempla essa adaptabilidade desde a planta”, afirma Bellincanta.
Um fenômeno urbano irreversível
A mobilidade contemporânea não vai recuar. O trabalho remoto transforma cidades litorâneas em polos permanentes de vida, não apenas destinos sazonais. Balneário Camboriú, Itapema, Itajaí e Porto Belo já vivem esse processo de forma acelerada, atraindo moradores, investidores e nômades digitais de todo o Brasil.
“A arquitetura que ignora essa transformação corre o risco de se tornar obsoleta antes mesmo de ser entregue. Projetar para o litoral hoje é entender que morar e hospedar já não são universos separados. São camadas da mesma experiência urbana”, alerta Bellincanta.