O estudo divulgado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção em parceria com a Brain Inteligência Estratégica, revelando que quase metade dos brasileiros mantém o desejo de comprar um imóvel mesmo diante de um cenário de juros persistentemente elevados, não me surpreende. Para quem acompanha as oscilações do mercado imobiliário nacional há décadas, esse dado não é um ponto fora da curva; é a reafirmação de uma constante antropológica e econômica do nosso país: o brasileiro não desiste do tijolo.
Os dados divulgados também mostram que 49% dos brasileiros têm a intenção de adquirir um imóvel nos próximos 24 meses. Embora o levantamento retrate o primeiro trimestre de 2026, esse patamar, que vem se mantendo praticamente estável (flutuando entre 49% e 50% desde junho de 2024), representa uma das maiores marcas da série histórica da pesquisa, que completa dez anos. Além disso, quando olhamos para trás, vemos um salto expressivo frente ao mesmo período do ano passado, quando o índice era de 44%.
Historicamente, o imóvel no Brasil desempenha um papel que vai muito além de um simples teto. Ele é o pilar da segurança familiar e, tradicionalmente, o porto seguro dos investimentos em tempos de instabilidade. A demanda reprimida continua viva, pulsante e amparada por uma conjuntura interna muito clara: o cenário favorável do mercado de trabalho. Com a taxa de desemprego em uma mínima histórica de 6,1% e o rendimento médio real das famílias atingindo o maior valor de sua série histórica, o consumidor encontrou a confiança necessária para planejar compromissos de longo prazo, mitigando o impacto do crédito mais caro.
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No entanto, operar e planejar em um cenário de taxas de juros elevadas e maior endividamento exige uma mudança profunda de estratégia, tanto por parte das incorporadoras quanto dos compradores.
O atual ciclo econômico impõe desafios óbvios, limitando o poder de compra da classe média por vias tradicionais. Segundo o estudo, 83% dos entrevistados querem adquirir um imóvel para morar. Contudo, o levantamento da CBIC e da Brain revela outros propósitos:
- Melhoria e espaço: 12% dos entrevistados buscam especificamente unidades maiores. São famílias que já possuem um imóvel e desejam migrar para ativos melhores, mais novos ou com mais benefícios urbanos.
- Investimento defensivo: Cerca de 13% dos brasileiros pretendem comprar um imóvel para rentabilizar o capital, sendo que a maior parte desse grupo mira especificamente o mercado de locação. O investidor compreende que o imóvel é um indexador natural e seguro contra as volatilidades financeiras.
Olhando para a frente, o diagnóstico é de otimismo pragmático. Se metade dos brasileiros quer comprar um imóvel hoje, enfrentando as atuais condições macroeconômicas, imagine o tamanho do represamento que será liberado assim que o ciclo de queda de juros for consolidado e o crédito se tornar mais acessível. Todavia, a longa duração dos juros altos — o Brasil tem hoje a taxa real mais elevada do planeta — exige também uma postura cautelosa, pois as despesas da classe média e média-alta são duramente pressionadas pelo aumento de custos com, por exemplo, saúde e educação, o que potencializa o grau de endividamento.
Para o comprador, o momento exige planejamento, pesquisa e, acima de tudo, a escolha de ativos de real valor — aqueles cuja localização e qualidade garantam valorização futura. Para nós, operadores do mercado, o estudo da CBIC é um combustível indispensável. Ele prova que a estabilidade proporcionada pelo patrimônio sólido, que é o imóvel, continua sendo o maior e mais resiliente objeto de desejo da sociedade brasileira.